Bêbado de Rua
by banzer
Você não sabia porque sua avó não o deixava brincar com as outras crianças em frente da sua casa. Você sempre foi um menininho super protegido do caralho! Sem malícia alguma pra encarar aquelas gurias com tetinhas ouriçadas e calçõezinhos de lycra coladinhos no rego, que batiam na porta da sua casa convidando pra brincar de pega-pega na rua. Sorte a sua, o mundo iria mastigar sua inocência como quem mastiga uma banana madura, a banana que você era.
O tempo passou e o que você fez? A sua arte de sobreviver até que desenvolveu bem, no começo era um playboy mimado mas depois teve que dar seus pulos, não teve lá muita importância no resumo geral dos acontecimentos, afinal você acaba o dia olhando o mundo pela janela dessa merda de computador, já que ninguém ainda te chama pra brincar lá fora. Talvez por que você nunca foi muito bom de bola, e depois de velho parece que piorou ainda mais.
A sua velha te olha na cara e você sente o coração apertado só de pensar que pode ter feito a escolha errada, que de uma hora pra outra eles vão chutar a sua bunda, você virar estatística, e aí cê tá fodido. Quem mandou se apegar tanto nessa porra de dinheiro? Quanto tempo você acha que o seu seguro desemprego vai sustentar as suas chupadas de garrafas de cerveja e essa sua gula desmedida? Esse seu discurso que “caixão não tem gaveta”, você não quer morrer o homem mais rico do cemitério, tudo isso é conversinha. Eu bem sei a sua ânsia de correr contra o relógio e poder proporcionar vida digna pra velha antes que ela parta.
Aí você fica nesse neura, e pra amenizar descobre em alguma dessas suas leituras inúteis que correr ajuda a combater o desanimo e combate a depressão (como se você tivesse depressão). E lá está você: suado, cansado, com sede, eis que se depara com aquele lugar bacana, mas simplório, que serve pequenas porções de cérebro de macaco fritas na manteiga que chegam ainda quentes a mesa de ferro, acompanhadas daquela clássica cerveja bundinha de foca que saliva sua boca até transbordar, só de pensar.
Não lembra? Aquele alí, situado na divisa da Planalto com Cabreúva, numa daquelas ruazinhas que cruzam a Orla Morena das quais nunca sabes dizer o nome, mas concordas que o diferencial competitivo do bar, restaurante, pé-sujo, seja lá o que for, é a atendente gorda, que também veste calçõezinhos de lycra coladinhos no rego (que fazem você relembrar a infância), além de um clássico chinelo de dedo “ipanema”.
O problema agora é que toda vez que vestes a bermuda e camisa velha pra tentar libertar-se, desses demônios que habitam sua mente, utilizando como pretexto aquela merda de atividade física, quando menos esperar, lá estará você, lambuzando-se naquela biboca.