DownSofa

por Diogo Banzer

A alegria do sonho ao entardecer

toda vida vem pra iluminar, o caminho de outras vidas

cantar, um hino a natureza, hino de alegria e de beleza

ouvir baixinho a voz dos sinos, fazer crescer o amor diário

abrir as portas do navio, beber o mar, beber o rio

viver a vida, viver o tempo de amar

meu filho

 

 

Eu te busco

por teres estado tão perto
mas agora distante
mesmo sem ter fugido
parece não teres ido

e hoje é como se ontem
mesmo fora de vista
a sua imagem fica comigo
e eu já fora de mim

sigo a sua pista

Quem são as mulheres?

Ah, as mulheres! Seres dignos das divagações mais profundas da alma, as infinitas enumerações de musa faz delas uma enorme redundância a cerca da beleza que habita o mais sagrado desse mundo.

O motivo final de toda a ação que o homem é capaz: guerras, toda a riqueza dos saques, ouro de impérios, civilizações que nasceram sob seus olhos cheios de amor e bençãos.

A cultura hora as quer aos montes, hora única, mas transbordante, com as cenas dos bacanais mais sórdidos vistos embaixo do sol e da lua.

São bundas, peitos, curvas em oásis, deliciosos detalhes, secretas carícias, e todos os apelos carnais possíveis.

A experiência, o bom senso, a mansidão, o cheiro de flor, emotiva o colo quente e acolhedor.

“A última ceia” – Tintoretto

A Velha

terminar em uma casa sozinha
no túmulo de uma sala
em frente a televisão
com a geladeira vazia
os filhos morando longe
grisalha
tomando remédio para dores
mas feliz por ter um teto

… de manhã
ela se levanta calada
senta na mesa de perna bamba
escuta o barulho dos carros lá fora
e vai sentar-se no sofá

poucas polegadas cansam a sua vista
então ela força os olhos pra enxergar
e se o sol que entra pela janela lhe incomodar
ela vai e fecha as cortinas

Bêbado de Rua

Você não sabia porque sua avó não o deixava brincar com as outras crianças em frente da sua casa. Você sempre foi um menininho super protegido do caralho! Sem malícia alguma pra encarar aquelas gurias com tetinhas ouriçadas e calçõezinhos de lycra coladinhos no rego, que batiam na porta da sua casa convidando pra brincar de pega-pega na rua. Sorte a sua, o mundo iria mastigar sua inocência como quem mastiga uma banana madura, a banana que você era.

O tempo passou e o que você fez? A sua arte de sobreviver até que desenvolveu bem, no começo era um playboy mimado mas depois teve que dar seus pulos, não teve lá muita importância no resumo geral dos acontecimentos, afinal você acaba o dia olhando o mundo pela janela dessa merda de computador, já que ninguém ainda te chama pra brincar lá fora. Talvez por que você nunca foi muito bom de bola, e depois de velho parece que piorou ainda mais.

A sua velha te olha na cara e você sente o coração apertado só de pensar que pode ter feito a escolha errada, que de uma hora pra outra eles vão chutar a sua bunda, você virar estatística, e aí cê tá fodido. Quem mandou se apegar tanto nessa porra de dinheiro? Quanto tempo você acha que o seu seguro desemprego vai sustentar as suas chupadas de garrafas de cerveja e essa sua gula desmedida? Esse seu discurso que “caixão não tem gaveta”, você não quer morrer o homem mais rico do cemitério, tudo isso é conversinha. Eu bem sei a sua ânsia de correr contra o relógio e poder proporcionar vida digna pra velha antes que ela parta.

Aí você fica nesse neura, e pra amenizar descobre em alguma dessas suas leituras inúteis que correr ajuda a combater o desanimo e combate a depressão (como se você tivesse depressão). E lá está você: suado, cansado, com sede, eis que se depara com aquele lugar bacana, mas simplório, que serve pequenas porções de cérebro de macaco fritas na manteiga que chegam ainda quentes a mesa de ferro, acompanhadas daquela clássica cerveja bundinha de foca que saliva sua boca até transbordar, só de pensar.

Não lembra? Aquele alí, situado na divisa da Planalto com Cabreúva, numa daquelas ruazinhas que cruzam a Orla Morena das quais nunca sabes dizer o nome, mas concordas que o diferencial competitivo do bar, restaurante, pé-sujo, seja lá o que for, é a atendente gorda, que também veste calçõezinhos de lycra coladinhos no rego (que fazem você relembrar a infância), além de um clássico chinelo de dedo “ipanema”.

O problema agora é que toda vez que vestes a bermuda e camisa velha pra tentar libertar-se, desses demônios que habitam sua mente, utilizando como pretexto aquela merda de atividade física, quando menos esperar, lá estará você, lambuzando-se naquela biboca.

Paula Bueno dança “mazurca” de Almir Sater

Explica Coração

Me explica coração a alegria que sinto de ver essa menina

De abraçá-la

De beijá-la

Chegar correndo pelas linhas das nossas mãos

Ouvir suas estórias

Estrangular a saudade

Passar a mão nos seus cabelos negros

Olhar dentro dos seus olhos e enxergar ainda mais fundo

Me explica coração a alegria que sinto de rever essa menina

De tocá-la

De amá-la

Acelerar o coração que está no peito bem guardado

Contar minhas estórias

Esquecer do tempo

Sentir o calor do seu corpo próximo ao meu

Olhar dentro dos seus olhos e sentir rodar o mundo

Bêbados Habilidosos – Eu quero ouvir um Blues…


eu quero ouvir um blues tomando uma dose dupla
eu quero ouvir um blues enquanto vc tira a blusa
eu quero ouvir um blues que fale sobre a luz da lua
que fale dos bares e dos bêbados de rua como eu
eu quero ouvir um blues pra te lembrar
e pra chorar sentindo a tua falta

eu quero ouvir um blues que fale um pouco de nos dois
eu quero ouvir um blues que deixa tudo pra depois
eu quero ouvir um blues que fale sobre a luz da lua
que fale dos bares e dos bebados de rua como eu
eu quero ouvir um blues que fale
e pra chorar sentindo a tua falta

Cazuza – Down em mim

 
Eu não sei o que o meu corpo abriga
Nestas noites quentes de verão
E nem me importa que mil raios partam
Qualquer sentido vago de razão

Eu ando tão down
Eu ando tão down
Outra vez vou te cantar, vou te gritar
Te rebocar do bar

E as paredes do meu quarto vão assistir comigo
À versão nova de uma velha história
E quando o sol vier socar minha cara
Com certeza você já foi embora

Eu ando tão down
Eu ando tão down
Outra vez vou te esquecer
Pois nestas horas pega mal sofrer

Da privada eu vou dar com a minha cara
De panaca pintada no espelho
E me lembrar, sorrindo, que o banheiro
É a igreja de todos os bêbados

Eu ando tão down
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Down… down

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